Um dia de cada vez, no meu tempo
Tem dias em que meu corpo parece um lugar estranho. No início do tratamento, tudo era mais intenso: o silêncio pesava, qualquer barulho incomodava, o sono não vinha como antes. Assusta depender de comprimidos, estar na terceira tentativa de ajuste e ainda assim seguir tentando. Existe um medo quieto de voltar às crises que vivi antes de pedir ajuda.
Algo mudou quando perdi a vergonha de falar sobre ansiedade. Colocar em palavras virou um respiro. O blog nasceu assim: como um espaço seguro, sem fórmulas prontas, apenas palavras quando elas conseguem sair. E, de forma inesperada, há quem volte, quem torça, quem se reconheça. Isso me conforta mais do que eu imaginava.
Estar em João Pessoa nesses últimos dias foi quase terapêutico. Sair de casa, pegar a estrada sem pressa, ouvir música, sentir que eu estava indo para algum lugar, mesmo que fosse para consultas e exames, me fez bem. Ocupou a mente e devolveu uma sensação simples: a de ser útil.
A consulta com o oftalmologista, porém, veio como um choque. Ouvir que minha córnea é fina demais e que talvez a cirurgia refrativa não seja possível doeu. Foi uma tristeza limpa, quase um luto por algo que eu já dava como certo. Ainda assim, escolhi acreditar. Vou fazer o exame caro, mesmo sem cobertura do plano. Talvez seja fé, talvez teimosia, mas é isso que me mantém de pé.
Por fora, fiquei calmo. Não deixei a frustração aparecer. Aprendi a engolir alguns “baldes de água fria” em silêncio. Cansa, mas sigo.
O que pesa de verdade é o silêncio da Hapvida. Mais de quarenta dias esperando um reembolso, sem resposta. O exame eu consigo resolver com ajuda da família, mas a burocracia desgasta mais do que deveria.
No meio desse caos, cuidar do carro virou algo simbólico. Trocar pneus, fazer rodízio, conversar com pessoas que não sabem nada da minha história. Ser tratado como alguém “normal” foi um alívio enorme.
Teve também o momento simples de parar na estrada para comprar queijo e doce de leite para Marisol. Ela só come aquele queijo. E eu gosto de ser, para ela, esse pai-herói que ela enxerga. Grande parte da força que eu tenho vem daí.
Na semana passada perdi um amigo para a depressão. Ele foi uma das primeiras pessoas a saber das minhas crises, alguém que me incentivou a buscar ajuda. Perdê-lo me atravessou fundo e me deixou com uma frase que não sai da cabeça: “Os problemas da vida se resolvem em vida”. Talvez seja por isso que eu continue lutando.
Hoje, observar a mim mesmo em silêncio virou exercício diário. Descobri que sempre cuidei dos outros, mas agora preciso cuidar de mim. Estou aprendendo a não estar tão disponível, a priorizar minha saúde. Às vezes, ligar o modo “tô nem aí”. Curiosamente, isso tem me feito mais feliz.
Como diz a música Morada da banda forfun: “Observo a mim mesmo em silêncio porque é nele onde mais e melhor se diz me ensino a ser mais tolerante, não julgar ninguém e com isso ser mais feliz”. Talvez a felicidade esteja exatamente aí: em viver um dia de cada vez, com honestidade, fragilidade e um pouco mais de gentileza comigo mesmo.


Teste
Sei das tuas lutas … Vê você se expressar através desse blog me alegra, pois acredito que a vida tem muito sentido para você, ainda bem ❤️ . Torço para que muito em breve tudo isso tenha sido apenas uma fase difícil . Se cuida !