Surfando o que me constrói
Tem dias em que a ansiedade fala mais alto do que qualquer certeza. Ela revisita decisões antigas, reabre conversas encerradas, cria versões alternativas da minha própria história. É como se eu estivesse sempre diante de um tribunal invisível, sendo julgado por escolhas que já não podem ser desfeitas.
Foi por isso que Surfando Karmas & DNA nunca foi apenas uma música pra mim. Sendo sincero, Engenheiros do Hawaii é uma das minhas bandas preferidas justamente porque consegue transformar inquietação em lucidez. E essa canção faz isso como poucas.
“Se eu soubesse antes o que sei agora / Erraria tudo exatamente igual.”
Essa frase não romantiza o erro. Ela o assume. Existe uma diferença enorme entre se orgulhar do que deu errado e reconhecer que cada erro ajudou a moldar quem eu sou. A ansiedade tenta me convencer de que eu poderia ter sido melhor, mais firme, mais estratégico, mais confiante. A música me lembra que eu fui o que consegui ser naquele momento. E isso já é suficiente.
“Surfando karmas e DNA” é uma metáfora que me atravessa. Eu não sou só resultado das minhas decisões. Sou também herança, padrão, impulso, medo aprendido, defesa automática. Parte de mim escolhe. Parte de mim reage. Parte de mim ainda está aprendendo.
Conviver com insegurança é carregar a sensação constante de que falta algo. Que eu deveria ser diferente. Mais seguro. Mais resolvido. Mas quando escuto “Eu não quero ter o que eu não tenho / Eu não tenho medo de errar”, sinto como se alguém estivesse me convidando a parar de negociar comigo mesmo.
Talvez maturidade não seja eliminar a ansiedade. Talvez seja parar de fingir que ela define o meu valor.
Assumir os próprios karmas não é aceitar qualquer destino. É entender que cada consequência tem uma história. Que cada queda ensinou um limite. Que cada decisão, mesmo torta, foi tomada com os recursos emocionais que eu tinha naquele dia.
A música fala de liberdade, mas não de uma liberdade romântica. Fala de uma liberdade construída. “Na falta do que fazer, inventei a minha liberdade.” Isso não soa como fuga. Soa como responsabilidade. Se o passado não pode ser reescrito, o presente pode ser assumido.
Eu ainda penso demais. Ainda reviso falas antigas. Ainda sinto o peso do “e se?”. Mas hoje eu entendo que apagar meus erros significaria apagar também o que me fortaleceu. Não existe identidade sem tropeço. Não existe coragem sem risco.
No fim das contas, eu sigo. Não porque tenho todas as respostas, mas porque escolhi parar de lutar contra a minha própria história. Estou aprendendo a surfar o que me forma, sem negar minhas ondas internas, mas também sem me afogar nelas.
E isso, para alguém que convive com ansiedade, já é um ato de coragem.

