Antes eu sonhava, agora já não durmo

É estranho perceber quando a vida muda de tom. Antes havia planos, ideias, aquela sensação de que tudo podia dar certo se eu me esforçasse o suficiente. Eu realmente acreditava nisso. Acreditava que bastava continuar tentando, continuar lutando, continuar sendo o que esperavam de mim.

“Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade.”

A frase ecoa na cabeça como se tivesse sido escrita para dias como estes. Porque, de certa forma, é isso que tenho feito: me equilibrar no limite. Entre o cansaço e a esperança. Entre o silêncio e a vontade de dizer tudo que está preso no peito.

Hoje vivo dias estranhos. Dias em que o corpo até tenta continuar, mas a cabeça parece sempre alguns passos atrás. Estou em tratamento para uma ansiedade severa. Tomo ansiolíticos, psicotrópicos… remédios que, em teoria, deveriam acalmar a tempestade por dentro.

Alguns dias ajudam.
Outros… nem tanto.

“Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos.”

Essa frase também não sai da minha cabeça. Porque é exatamente assim que parece. A gente tinha uma direção, um acordo silencioso de que estávamos construindo algo juntos.

Em algum momento, isso mudou.

“Tínhamos um plano… você mudou de ideia.”

E eu fiquei aqui tentando salvar alguma coisa que talvez já estivesse quebrada muito antes de eu perceber.

Hoje parece que vivo dentro de um casamento que existe mais para os outros do que para nós dois. Uma vitrine bem montada. Uma fachada que, de fora, talvez pareça normal.

Por dentro, no entanto, o ar ficou pesado.

Não existe mais conversa que não venha carregada de defesa, de irritação, de um tom que já começa agressivo antes mesmo da primeira frase terminar. Qualquer tentativa de diálogo parece virar confronto.

Nada do que eu faço parece suficiente.

Sempre existe alguém melhor. Um exemplo vindo de fora. Um marido de alguma amiga. Uma história de comparação. Um parâmetro invisível que eu nunca consigo alcançar.

E pouco a pouco, sem perceber, você começa a acreditar.

Que talvez seja mesmo inútil.
Que talvez esteja falhando em tudo.

Eu me vejo lutando o tempo todo para fazer as coisas darem certo. Do jeito que sempre me pediram. Do jeito que disseram que era o correto. Mas a sensação é que a linha de chegada sempre se move um pouco mais para frente.

E o cansaço vai acumulando.

Cansa explicar.
Cansa tentar.
Cansa existir sob cobrança constante.

Porque ninguém vê a luta silenciosa que acontece dentro da gente. Ninguém vê o esforço de levantar todos os dias quando a mente já passou a madrugada inteira em guerra.

“Tudo está perdido… mas existem possibilidades.”

Eu queria acreditar mais nessa parte da frase.

Porque nos últimos dias, confesso, minha cabeça tem ido para lugares escuros. Lugares onde a ideia de simplesmente desaparecer começa a parecer um tipo de descanso.

E isso assusta.

Assusta perceber até onde o cansaço pode levar alguém.

Mas, lá no fundo, muito fundo mesmo, ainda existe uma parte de mim que sabe que esse momento não pode ser a última palavra da história.

Talvez eu esteja quebrado agora.
Talvez eu esteja perdido.

Mas perdido… ainda não é o mesmo que acabado.

  • 5 de março de 2026